PSICOLOGIA ALQUÍMICA E O PROCESSO DE
INDIVIDUAÇÃO
O processo de individuação consiste em
confrontar o inconsciente Pessoal e seus complexos psíquicos, reconhecendo-os e
despindo-se da persona e das imagens primordiais. Segundo Jung, o processo de
individuação nada tem de individualidade, pelo contrário, é um processo, que estimula
o indivíduo a criar condições para que desperte o melhor de si e do outro,
fazendo-o sair do isolamento e empreender uma convivência mais ampla e
coletiva, por estar mais próximo, conscientemente da totalidade, mas ainda mantendo
sua individualidade. O processo de individuação consiste em aproximar o mundo
do indivíduo e não o excluir do mesmo. O autoconhecimento é o caminho para
promover as necessárias quebras de padrões comportamentais que atravancam o
processo de individuação. Este caminho segue uma dinâmica, aparentemente,
descontinuada e desconexa, do ponto de vista egóico, mas simétrico e coerente
para o Self. Portanto, é inevitável a
revisão minuciosa destes padrões de comportamento, de preconceitos explícitos e
de conceitos equivocados, gerando um desarranjo, desarmando os mecanismos de
pseudo-segurança.
Para
melhor entendimento de como podemos conduzir as etapas no processo de
individuação, junto ao cliente, utilizaremos de forma análoga, a metáfora
alquímica com base na dinâmica apresentada na gravura da montanha dos adeptos,
descrevendo a seguir, as etapas do processo alquímico. A alquimia, ao logo dos séculos, assustou e
confundiu muitas pessoas, pois muitos alquimistas trabalhavam escondidos para
evitar as fogueiras da “Santa Inquisição”. Mas na verdade este trabalho tinha
como objetivo transformar algo bruto em um material refinado, o que,
simbolicamente, corresponde a nossa transformação psíquica.
1) Calcinação: Consiste
em submeter um corpo, uma pedra, p. ex., a um calor elevado, para que este
libere a água. Então, quando o cliente chega ao consultório, ele chega
calcinando, mas calcinando pela água, que representa as emoções agindo de forma
destrutiva, cristalizando os complexos. Sendo assim, o trabalho do analista,
nesta fase, é colocar o “fogo”, mas um “fogo” planejado, ou seja, utilizar o
“fogo” do cliente em processo de análise, para combater o próprio “fogo”.
Utilizando a ferida, fruto da queixa daquela calcinação, para calcinar a
própria ferida. Promovendo assim, a mudança de dimensão, que através da
calcinação evoluirá de nigredo para outra chamada de albedo.
2) Sublimação: Consiste
em converter um corpo de estado sólido para estado gasoso. Para Jung, a
sublimação corresponde a ação de colocar ar, ou seja, pensamento, ampliação de
consciência, em cima da cal ou do pó que possibilita manuseio, pois ainda não
tem forma, visto que o complexo que foi calcinado e agora tornou-se pó, permite
e gera condições para o indivíduo lidar com a sombra, com os infernos internos.
E neste momento, o analista junto ao cliente começa a planejar ou imaginar como
ele, cliente, quer lidar com a vida, averiguando e identificando suas reais
expectativas, referente à situação em que esteja inserido, e o que, de fato,
espera de sua própria existência, de maneira ampla e global. E depois desta
sincera avaliação, de âmbito absolutamente pessoal, passam a verificar as
disposições de merecimento, também, pessoal, mediante as expectativas
planejadas e esperadas. Sendo que, p. ex., é improvável que uma pessoa adquira
fluência em idioma estrangeiro, sem empenhar esforço e recursos pessoais para o
aprendizado do mesmo.
3) Solução/Solver: Nesta
fase o líquido homogêneo resultante da dissolução, pode ser reutilizado.
Portanto, podemos colocar o sentimento novamente, mas agora de forma
consciente, lógica, inteligente. Em outras palavras, ao passarmos pelas etapas
de calcinação e sublimação, fazemos com que o indivíduo tenha percepções
intuitivas para poder tirar a exuberância da carga emocional dos complexos, e
através da etapa solução, o indivíduo possa solver, aproximando o sentimento
sem correr o risco de despertar o complexo novamente, dando nova forma a
antigos conteúdos. E neste momento, também criamos condições para o indivíduo
galgar outra dimensão, em que podemos chamar de rubedo.
4) Putrefação/Fermentação: Consiste
no processo de decomposição. Sendo assim, agora a presença da água/sentimento,
diante daquele conteúdo, não calcina mais pelo fogo devastador, mas, ainda
assim, provoca o equivalente a uma calcinação, só que nesta etapa, de forma
branda, pois consiste na putrefação ou fermentação. Isto corresponde às
necessárias mortes simbólicas, para a possibilidade de renovação, de criação,
visto que, precisamos fazer substituições de conteúdos destrutivos por
conteúdos construtivos. Nesta etapa acontecem as transformações, tendo em vista
que, a base da alquimia é a troca, e se perdemos ou negligenciarmos a troca,
também perderemos a oportunidade de transformação. Temos que estar atentos e
dispostos para promovermos as necessárias quebras dos padrões de cristalização,
para assim, rearranjarmos a própria economia psíquica.
5) Separação/Destilação: Consiste
em isolar através da evaporização e a imediata condensação dos componentes
voláteis, da mistura líquida, obtendo-se a água destilada livre de impurezas.
Este é o momento onde conscientemente, o indivíduo vai fazer escolhas diante
das possibilidades que surgiram em função das mortes simbólicas. São as
rupturas, é o renascer literal, e isto tem que ser conscientemente, levando em
conta que cada escolha implica em uma desistência, cada decisão, implica em uma
cisão, ou seja, uma separação.
6) Coagulação: Refere-se
ao resultado da solidificação. A partir do momento que o indivíduo separou ou
destilou, ele passa para a etapa de coagulação. Isto significa concretizar as
atitudes tomadas. Então, ao passarmos por todas as etapas anteriores, de
calcinar, sublimar, solver, putrefar, separar, estamos finalmente em condições
de coagular, portanto, a partir deste momento obtemos a ilusão de encontrar o
equilíbrio, a tintura maior, que é a sétima etapa. Sobre o termo ilusão, apenas
para esclarecer, temos que ter em mente que terminamos este processo, mas que
outros virão e este suposto equilíbrio será novamente abalado, mas isto faz
parte da dinâmica do processo de individuação.
7) Tintura/União: Consiste
na ação de tingir a obra nas cores clássicas da alquimia, concluindo o processo
alquímico. Sendo que assim, o indivíduo, agora, está tingido, e desta maneira
encontra-se repleto de sentimento, emoção, pensamento, ação, todos alinhados,
preparando-nos para um novo processo alquímico, que certamente será disparado
por uma nova crise, e como mencionado no item anterior, dando continuidade ao
processo de individuação. Na tintura, nos aproximamos da percepção da essência,
sentido e significado existencial.
Bibliografia: Aion estudo
sobre o simbolismo do si-mesmo – Carl Gustav Jung
Psicologia Alquimica- Carl
Gustav Jung
Ivanice Rodrigues – Professora
Uniabrath - Arteterapeuta – especialista Psicologia Junguiana

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